Pensamento...

"Eu sou o Colombo da minha alma e diariamente descubro nela novas regiões." | Gibran Khalil Gibran.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O MELHORAMENTO DA TERRA.



Havia, nos EUA, um diplomata muito atarefado, que estava realizando uma reunião em sua própria residência, quando foi interrompido pelo filho de seis anos:
- Papai, papai, vem brincar comigo?
Ao que o pai redarguiu:
- No momento não posso, pois estou em uma reunião muito importante!
O diplomata confiou a criança aos cuidados de uma babá e deu continuidade à sua reunião.
Não se passaram dez minutos e, novamente, o menino adentra a sala, serelepe, bradando:
- Papai, papai, vem brincar comigo?
O pai, agora contrariado, repreendeu o filho de forma mais dura e explicou mais uma vez que não poderia brincar com ele no momento.
A mesma cena repetiu-se por mais algumas vezes até que o pai teve uma idéia para entreter o filho irrequieto.
Tomou nas mãos uma revista, folheou-a e destacou uma página cuidadosamente escolhida. Nela havia o desenho de um mapa-múndi. O pai despedaçou-a, improvisando um quebra-cabeças e o deu ao filho, dizendo:
- Vamos fazer um acordo! Tome estas peças e monte-as, formando um mapa do mundo. Assim que a tiveres montado, eu irei brincar contigo.
O filho pegou as peças como se fossem um tesouro precioso e saiu em disparada na ansiedade de montá-las logo. O pai, agora mais tranqüilo, voltou-se aos seus pares e informou:
- Meu filho, em função de sua tenra idade, não possui conhecimentos geográficos suficientes para montar um mapa-múndi. O quebra-cabeças que fiz vai ocupá-lo por um bom tempo. Agora podemos continuar nossa reunião sem sermos mais interrompidos.
Todavia, após cinco minutos, o menino invade abruptamente a sala, gritando:
- Papai, papai, vem brincar comigo?
O pai, exaltado, responde:
- Pois eu não lhe disse que só iria brincar com você depois que montasse o quebra-cabeças do mapa-múndi?
O filho, não cabendo em si de contente, disse:
- Ah, papai, eu já montei o quebra-cabeças, agora vem brincar comigo!!!
O pai, boquiaberto, examinou o quebra-cabeças precisamente montado e perguntou a babá se ela não o havia auxiliado. Ela respondeu que não. Voltou-se para o filho e perguntou:
- Como você fez para montar o mapa sem conhecimentos de geografia e cartografia?
O filho respondeu:
- Ah, pai! Foi muito fácil. Do outro lado da página da revista havia a figura de um homem. Então eu consertei o homem e, daí, eu consertei o mundo!
Surpreendido com a argúcia e inteligência do filho, o pai interrompeu naquele mesmo instante a reunião e foi brincar com ele.
***
Eixo central nas propostas espiritistas, o melhoramento do homem é entendido como ponto de partida para o melhoramento do mundo, o que a história acima exemplifica muito bem.
Sonho muito antigo, o paraíso terrestre parece não ser mais do que isto, um mero sonho, pois muito pouco se tem feito para concretizá-lo.
Anacoretas e missionários, políticos e revolucionários, profetas e sábios, tentaram implantá-lo das mais diversas formas... Acho que é desnecessário dizer que não conseguiram.
Da República, de Platão, ao Adimrável Mundo Novo, de Huxley, surgiram e se multiplicaram as mais fantásticas propostas e descrições de um mundo ideal... Todas elas ineficazes.
Embora pareça simplista, a verdade é que todas as reformas implementadas no mundo não tiveram êxito porque partiram de fora para dentro e não de dentro para fora, como deveriam.
As sociedades estão cheias de leis, impostas para garantir o seu bom funcionamento. Entretanto, é sabido que elas são insuficientes e falhas, havendo sempre quem as burle e desrespeite.
Muitos modelos de sociedade que foram impostos em alguns países como solução final às suas mazelas, fracassaram por completo, acarretando conseqüências desastrosas à sua organização política, econômica, cultura, etc.
Preocupado com esta questão, Allan Kardec interrogou os Espíritos sobre a possibilidade de jamais implantar-se na Terra o reinado do bem, ao que responderam de forma clara e lúcida:
“O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons predominarem, porque, então, farão que aí reinem o amor e a justiça, fonte do bem e da felicidade. Por meio do progresso moral e praticando as leis de Deus é que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos e dela afastará os maus. Estes, porém, não a deixarão, senão quando daí estejam banidos o orgulho e o egoísmo.
“Predita foi a transformação da Humanidade e vos avizinhais do momento em que se dará, momento cuja chegada apressam todos os homens que auxiliam o progresso. Essa transformação se verificará por meio da encarnação de Espíritos melhores, que constituirão na Terra uma geração nova. Então, os Espíritos dos maus, que a morte vai ceifando dia a dia, e todos os que tentem deter a marcha das coisas serão daí excluídos, pois que viriam a estar deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, desempenhar missões penosas, trabalhando pelo seu próprio adiantamento, ao mesmo tempo que trabalharão pelo de seus irmãos mais atrasados. Neste banimento de Espíritos da Terra transformada, não percebeis a sublime alegoria do Paraíso perdido e, na vinda do homem para a Terra em semelhantes condições, trazendo em si o gérmen de suas paixões e os vestígios da sua inferioridade primitiva, não descobris a não menos sublime alegoria do pecado original? Considerado deste ponto de vista, o pecado original se prende à natureza ainda imperfeita do homem que, assim, só é responsável por si mesmo, pelas suas próprias faltas e não pelas de seus pais.
“Todos vós, homens de fé e de boa-vontade, trabalhai, portanto, com ânimo e zelo na grande obra da regeneração, que colhereis pelo cêntuplo o grão que houverdes semeado. Ai dos que fecham os olhos à luz! Preparam para si mesmos longos séculos de trevas e decepções. Ai dos que fazem dos bens deste mundo a fonte de todas as suas alegrias! Terão que sofrer privações muito mais numerosas do que os gozos de que desfrutaram! Ai, sobretudo, dos egoístas! Não acharão quem os ajude a carregar o fardo de suas misérias[1].”
Da resposta dada pelos Espíritos podemos deduzir o seguinte:
1) A Terra melhora na medida diretamente proporcional  da encarnação de Espíritos melhores;
2) O Espírito melhora, quando progride moralmente, praticando as leis de Deus;
3) A transformação da Terra correrá através do surgimento de uma nova geração, constituída por Espíritos que se adiantaram através de seus trabalhos, estudos e sacrifícios;
4) A Terra, no futuro, comportará apenas Espíritos melhorados;
5) Aqueles que não se adaptarem à nova realidade serão degredados para mundos menos evoluídos, tal qual aconteceu à Terra nos primórdios da sua civilização, albergando grandes contingentes de Espíritos degredados de outros sistemas planetários que haviam estacionado em seu desenvolvimento;
6) O mito do Paraíso Perdido representa uma alegoria que caracteriza a queda dos Espíritos de um mundo mais desenvolvido para outro menos desenvolvido. Vale frisar que a evolução é sempre progressiva e jamais retrograda. Assim, os Espíritos que são degredados apenas estacionam em seu desenvolvimento, nunca retrocedem, isto não existe;
7) O mito do Pecado Original também é facilmente explicado pela pluralidade dos mundos e existências, pois cada um é herdeiro de si mesmo, carregando para onde quer que vá os seus defeitos e virtudes;
8) Os Espíritos, esclarecem ainda, que vivemos num tempo muito importante,  e que, por isso, precisamos trabalhar ativamente para contribuir com a melhoria do mundo, começando com a nossa própria melhoria.
À guisa de conclusão pode-se afirmar que:
Para que a Terra melhore, portanto, é indispensável que os seus habitantes melhorem também!



[1]    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro, FEB. Questão 1119, p.475-476.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

APRENDER A MORRER PARA APRENDER A VIVER



O tabu da morte.

A palavra tabu vem do polinésio, significando algo que é sagrado, intocável ou proibido. Justamente nesse último sentido, no de proibição, é que a morte tem sido considerada em nossa cultura.
Mesmo sendo um impositivo biológico, todos tendo que passar por ela, a morte é um tema recorrentemente evitado.
Dificilmente se fala sobre a morte e o morrer...
Ao longo do dia, nossos diálogos giram em torno dos assuntos mais diversos, no entanto, dificilmente tangem a questão da morte.
Nada obstante, o problema da morte é de extrema relevância para o homem e para a sociedade.
Talvez, muitos dos problemas que se enfrenta na atualidade, causadores de infelicidade e perturbação, não ocorreriam se nos preocupássemos mais com o que diz respeito à morte.
A morte é um fenômeno complementar à vida, havendo íntima ligação entre ambos, não podendo ser deixada de lado, como se não existisse, sob pena de nos iludirmos, como vem acontecendo.
Precisamos, urgentemente, tratar da temática da morte, procurando entendê-la de forma mais ampla e correta.

Verdades que são eternas!

Malgrado a opinião de alguns, muitas verdades se afirmam como eternas, ao menos do nosso ponto de vista. Uma delas é a da existência da alma e a sua imortalidade. Todos os povos do nosso planeta apresentaram e, ainda, apresentam uma noção mais ou menos clara a esse respeito, constituindo a base dos seus sistemas religiosos.
Cumpre destacar que a crença religiosa na existência da alma e da sua imortalidade, que é, por assim dizer, universal, hoje possui uma série de elementos que a evidenciam, alterando aos poucos o seu status de crença para fato positivo.
Considerando os avanços científicos da atualidade e a preocupação crescente de alguns homens de ciência em explorar as fronteiras da morte, é possível que num tempo muito breve, a alma e a sua imortalidade passem a ser, para o mundo acadêmico, fatos incontestáveis.
Enquanto isto não ocorre, porém, diante da verdade eterna da alma e da imortalidade, cada um de nós deve abordar de forma direta o problema da morte, quebrando o seu tabu.

Para o Espiritismo, uma mera transição...

Segundo o Espiritismo, na esteira das religiões e filosofias espiritualistas, a morte é meramente uma transição de um modo de vida para outro.
Baseado em fortes evidências, confirma a existência da alma, da sua imortalidade, das múltiplas dimensões espirituais que aguardam o ser após a morte, entre tantas outras coisas...
Solucionando o grave problema da morte, o Espiritismo apresenta um conjunto de diretrizes que permite que nos conduzamos melhor pelos caminhos da vida, através do diminuto tempo circunscrito ente a vida e a morte.
Assim, para o Espiritismo, é da perspectiva da morte que vem a sabedoria necessária para orientarmos a nossa vida com segurança.
Aquele que sabe que está no corpo só de passagem, cumprindo tarefas específicas no meio em que vive, encara a vida de outra maneira, valorizando mais as coisas que estão dentro de si, formando seu patrimônio inalienável, tais como o saber, as virtudes, as boas lembranças, etc., do que as coisas que estão fora de si, das quais tem consciência de ser apenas um usufrutuário.

Uma experiência de quase morte.

A Dr. Elizabeth Kübler-Ross celebrizou-se pelos estudos e pesquisas que empreendeu sobre a morte e o morrer. Percorreu várias partes do mundo realizando palestras, conferências e seminários sobre este tema tão importante. Como resultado de vários anos de coleta e análise de dados, convenceu-se quanto à realidade do ser espiritual e quanto à sua sobrevivência depois da morte biológica.
Num dos seminários que realizara, abordando casos de EQMs, experiências de quase morte, pediu, em uma oração íntima, que a sua explanação fosse corroborada pela narrativa de alguém que estivesse presente e tivesse vivenciado um evento análogo. A sua prece foi atendida.
Ao final do seminário, após a última palestra, a Dr. Kübler-Ross abriu espaço para perguntas, comentários ou algum testemunho pessoal. Para surpresa geral, um senhor levantou-se e dirigiu-se ao púlpito, pedindo permissão para partilhar uma experiência de quase morte que se dera com ele e que fora fundamental para a renovação de sua vida psicológica e relacional.
Ele tinha 45 anos e poderia já estar entre os mortos, não fosse um acontecimento transformador pelo qual passou, que modificou Poe completo a sua forma de ver a vida e o seu quadro de valores.
Quatro anos antes, ocorreu uma verdadeira tragédia em sua vida. Havia programado uma viagem de final de semana com a família, mas na última hora, atendendo obrigações profissionais, resolveu não ir viajar, mas incentivou a esposa e os três filhos a irem assim mesmo, sem a sua companhia. E eles foram...
O homem estava no trabalho ainda, quando recebeu um telefonema perturbador. A esposa e os filhos tinham sofrido um acidente de carro e estavam todos mortos. A vida para ele também acabara ali, porque perdera o seu sentido...
Ele abandonou o emprego, mergulhou no álcool e nas drogas, ficando a vagar pelas ruas ao léu, sem rumo algum...
Certo dia, embriagado, achava-se em uma estrada bem movimentada, quando foi atropelado. A batida projetou-o cinco metros para frente, deixando-o inconsciente, entre a vida e a morte. Nesse ínterim, algo estranho aconteceu, o homem levantou-se, ainda atordoado, sem entender o que estava acontecendo. Para sua surpresa, visualizou a cena de um acidente, vendo a vítima atirada no asfalto. Levou um choque quando se aproximou da vítima e se deu conta de que era ele mesmo. Afastou-se dali, sobressaltado, e, pela primeira vez desde a tragédia que o privara do convívio familiar, lembrou de orar, pedindo socorro ao Mais Alto.
Como nenhuma prece fica sem resposta, a prece daquele homem foi atendida no mesmo instante. Estupefato, divisou ao longe uma luz radiante que vinha em sua direção. Quando a luz se posicionou em sua frente, pôde perceber estranha metamorfose. A luz foi, aos poucos, transformando-se na esposa e nos filhos. Que momento comovente... Todos vinham ao seu encontro, cheios de ternura, bondade e amor... Conversaram largamente... A esposa, preocupada com o rumo que ele dera à própria vida, reprovou-lhe o comportamento autodestrutivo e a revolta contra Deus, esclarecendo que ela e os filhos estavam sofrendo muito pelos descaminhos que ele elegera para si e que só iriam separá-los ainda mais, ao invés de aproximá-los.
Pouco tempo depois, o homem despertava em seu corpo, ressuscitado pela equipe médica.
A vida dele, no entanto, jamais seria a mesma novamente. Aquela experiência causou-lhe um efeito muito positivo, servindo de eixo para remodelar a sua existência. Passou a interessar-se mais pelas coisas espirituais, conseguindo fazer as pazes consigo mesmo e com Deus.

Aprender a morrer para aprender a viver.

Como a morte, cedo ou tarde, sempre chega, precisamos estar preparados para ela. E o que significa isso? Significa, de um lado, poder recebê-la de forma tranquila, isto é, sem medo, sem apreensão, sem incertezas... Já por outro lado, significa poder acompanhá-la, deixando o corpo físico para trás, sem nenhum tipo de trauma, sem grandes abalos ou violência, sem apego excessivo, sem questões em aberto com outras pessoas, sem mágoas e ressentimentos, sem ódios e malquerenças...
Depreende-se, do exposto acima, que se preparar para a morte não é tarefa fácil, demandando um trabalho intenso dentro de nós mesmos, voltados sempre para o bem, para o justo, para o belo... Esse preparar-se para a morte, implica uma aprendizagem que é na maioria das vezes muito lenta e gradual, não sendo recomendável queimar etapas. Do mesmo modo que não aprendemos um novo idioma da noite para o dia, a aprendizagem, a educação para a morte, exige muito tempo e dedicação.
A aprendizagem da morte é fundamental para a aprendizagem da vida.
Inúmeras personalidades se destacaram na história, simplesmente por terem aprendido a morrer, isto é, souberam se posicionar perante as questões da vida servindo-se de uma perspectiva espiritual. Redimensionando o modo de compreensão da morte, encarando-a de frente e com naturalidade, modificaram suas próprias vidas, legando para humanidade uma herança fabulosa em grandes obras, bons exemplos, mensagens sublimes... Apenas para citar algumas dessas personalidades: Moisés, Zoroastro, Fo-Hi, Lao-Tsé, Confúcio, Sócrates, Epícteto, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Francisco Cândido Xavier...
Desde o berço, no círculo das relações familiares, logo depois, na escola, na sociedade, nas Universidades, no mundo do trabalho, deveria se receber educação permanente para a morte. Como tal não ocorre, o resultado é a nossa dificuldade e o nosso despreparo para lidar com a morte e com o morrer.
Como a estrutura e a conjuntura da sociedade tendem a permanecer as mesmas, até que um acontecimento lhes force a transformação, é muito mais difícil mudá-las do que a nós mesmos. Por isso, o ponto de partida para a evolução da sociedade e do mundo reside na evolução dos indivíduos que as compõem. Se um indivíduo em particular consegue dar um salto evolutivo, a sociedade recebe-lhe a influência, evoluindo também.
A compreensão da morte e, sobretudo, a nossa preparação para ela, marcarão uma nova fase na História da Humanidade, diferente de todas as outras que a antecederam, repousando na pedra angular das realidades do Espírito.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O DRAMA DO PADRE DOMÊNICO.



No ano de 1946 chegava ao público espírita mais uma obra do Espírito André Luiz, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, Obreiros da Vida Eterna. Era a quarta obra da chamada série André Luiz, sucedendo as anteriores: Nosso Lar, Os Mensageiros e Missionários da Luz. É a primeira obra em que André Luiz aparece, não apenas como um observador e aprendiz, mas como um servidor da Espiritualidade, no desempenho de missão bem definida.
André Luiz, supervisionado pelo Instrutor Jerônimo e na companhia de Hipólito, que fora padre em sua última encarnação, e de Luciana, que fora enfermeira, formava com eles pequena comitiva saída da colônia espiritual Nosso Lar com destino à superfície terrestre para atender cinco casos de desencarne, auxiliando no processo de desligamento dos laços que prendem o Espírito ao corpo. Entretanto, no meio do trajeto, estacionam em casa transitória, localizada em zonas umbralinas, que serviria como elemento de ligação entre a Crosta e a colônia espiritual de que procediam. Era a Casa Transitória Fabiano de Cristo, administrada eximiamente pela Irmã Zenóbia, posto avançado de socorro às trevas e aos Espíritos em desequilíbrio profundo. Ali, seriam recolhidas as cinco entidades em vias de desencarne, antes de seguirem para Nosso Lar.
Gostaríamos, todavia, de narrar o drama doloroso do padre Domênico, que possuía estreitos vínculos afetivos com a Irmã Zenóbia.
Aproveitando-se da presença dos missionários do Nosso Lar em sua casa transitória, Zenóbia solicita o concurso de Jerônimo, Hipólito, Luciana e André Luiz para atender um caso particular, no qual estava trabalhando já há várias décadas. Tratava-se de um Espírito mergulhado em densas sombras, em posição psíquica negativa, isto é, refratário a todos os apelos e esforços de recuperação e melhoria. Fora padre em sua última romagem terrena, entretanto, não soube honrar os compromissos do sacerdócio com Jesus, que livremente aceitara.
Com a anuência dos missionários, Zenóbia organiza pequena expedição na direção de abismo próximo, onde se encontrava a entidade sob severa vigilância e cuidado de dois trabalhadores da Casa Transitória. Em lá chegando, observam a situação comovedora em que se encontrava tal criatura. Achava-se prostrada no chão, totalmente cega, ouvindo com dificuldade, cheia de revolta e azedume.
Zenóbia ajoelha-se e, para surpresa dos demais, toma o Padre Domênico em seu regaço, afagando-o com desvelo e carinho.
Inconformado com sua sorte, Domênico esbravejava impropérios contra aqueles que vieram auxiliá-lo, conquanto não os visse, somente escutando-os com muita dificuldade. Zenóbia improvisa uma prece e energias do Mais Alto vertem em direção da entidade revel, melhorando seu estado psíquico e dilatando o campo de sua audição e um pouco da visão. Ante isto, André Luiz comenta estupefato: “Oh! Mais uma vez, reconheci que a prece é talvez o poder máximo conferido pelo Criador à Criatura!”, impressionado pelos efeitos operados pela oração atenuando os desequilíbrios do Padre Domênico.
Diálogo surpreendente é entabulado entre os missionários e o Espírito encarcerado nas trevas de si mesmo. Domênico sentia-se traído pelas forças do Céu. Pelo simples fato de ter sido padre na Terra e de ter recebido a absolvição dos pecados antes de morrer, julgava, em sua compreensão estreita, que merecia acesso às regiões sublimadas do “Paraíso”. Estava fundamente revoltado. Não reconhecia os erros cometidos. O coração transbordava raiva, ódio e fel...
Zenóbia pede a intervenção de Luciana, dotada de profunda capacidade clarividente, a fim de penetrar nos escaninhos mentais de Domênico, descrevendo sua vida terrena para que ele pudesse fazer o auto-exame, reconhecendo seus erros e enganos.
Luciana, então, após concentrar-se na observação da entidade, passa a narrar os quadros mentais que iam manifestando-se à sua visão, tal qual o filme em um cinema. Enxerga os últimos momentos do padre na Terra. Vê-o introduzindo-se em lar honesto e seduzindo uma senhora que, desavisada, cai nas malhas daquele homem dominador. O marido, que estava viajando, retorna de chofre e presencia todo o acontecimento. Ferido e magoado, trama um plano sinistro. Compra uma garrafa de vinho e despeja nela veneno mortífero, indo até a casa paroquial aguardar o retorno do padre. Quando o padre chega, o marido finge que havia chegado naquele momento de sua viagem e oferece ao padre o vinho como obséquio da amizade que existia entre ambos. O padre convida-o a entrar e bebe copiosamente o vinho recebido. O ar começa a rarear, pede socorro, não consegue mais falar... O marido rapidamente se desfaz da prova do crime e grita por ajuda. É atendido por outro pároco, Monsenhor Pardini, que se apressa em absolver o Padre Domênico de todos os seus erros.
Luciana percebe que o padre, ao morrer, continuou ligado aos seus despojos, experimentando o começo da putrefação do corpo físico. Domênico é surpreendido em pleno sepulcro por entidade sombria que avança em sua direção com os braços abertos, ao que o padre, tomado de pavor e medo, consegue desembaraçar-se do corpo, saindo em disparada, correndo de si mesmo para lugar algum. Luciana, então, identifica aquela criatura como tendo sido bela jovem, também iludida pelo padre. Fora engravidada por Domênico e, como este não desejava assumir o compromisso, suicidou-se no lar paterno, ingerindo um corrosivo formicida.
Luciana divisa na tela mental de Domênico o momento derradeiro que privou com seu pai. Este, moribundo, confessou ao filho que possuía mulher e filhos fora do casamento e que desejava reconhecê-los, a fim de não deixá-los ao desamparo. Apresenta um testamento com a divisão equitativa dos bens, que eram muitos, pedindo encarecidamente que o filho lhe reparasse o erro, sendo apoio seguro para a família desconhecida. Domênico concorda com o pai, oferece-lhe palavras consoladoras para que não se sentisse culpado, prometendo amparar a mulher e os seus irmãos. No entanto, assim que o pai morreu, ele engavetou o testamento e não cumpriu sua promessa, relegando à própria sorte a concubina de seu pai e os seus filhos...
Luciana, ainda, verifica outro golpe dado por Domênico num colega de batina. Aspirava a uma paróquia localizada em região litorânea que pertencia a outro pároco. Este, não concorda em cedê-la, por já estar com a idade muito avançada e, também, por estar muito apegado às pessoas de sua paróquia. Domênico, ardiloso, manipula suas influências no alto escalão da Igreja local e consegue com que o padre fosse afastado para outra paróquia, localizada na serra. O padre não suportou a separação e acabou morrendo, odiando profundamente à Domênico...
Luciana, finalmente, observa uma mãe com seu filho anêmico batendo à porta de Domênico, pedindo ajuda. O menino, que tinha entre nove e dez anos, era filho do padre e estava vitimado pela tuberculose. A mãe, desprovida de recursos, como última alternativa, vai buscar ajuda junto à Domênico para que financiasse o tratamento da criança. Domênico, impassível, soltou cães ferozes que avançaram na direção da mãe e do seu filho doente, que acabaram, pouco tempo depois, morrendo.
Nesse ponto o Padre Domênico não agüentou mais a narrativa, implorando a Luciana que interrompesse suas descrições vívidas dos erros que ele perpetrara quando na Terra.
Domênico chora compulsivamente, reconhecendo seus erros, suplicando perdão e ajuda. Zenóbia faz um apelo mental à mãe de Domênico que, em breves instantes, acode, pressurosa, vindo em benefício do filho. Ernestina chega, toma o filho em seus braços, e convida-o a orar, como faziam quando ele era apenas uma criança. Sentença por sentença, Domênico repete a prece, com muita dificuldade, lavando o seu ser em lágrimas doridas, clamando ao Mais Alto por misericórdia.
Nisso, Domênico pergunta à sua mãe por Zenóbia, indagando se ela o teria esquecido. A mãe responde que não, que certamente ela estaria amparando-o de regiões superiores. Domênico, então, pondera que se ambos houvessem casado, o seu destino seria outro, pois que Zenóbia teria sido esteio seguro à sua caminhada na Terra. A mãe lhe adverte suavemente, para que não atribuísse à Zenóbia a causa de sua queda, pois que ela fora compelida pelos seus pais a desposar um viúvo com vários filhos, sabendo-se manter fiel aos compromissos assumidos e pensamento sempre voltado para o Alto, enquanto ele havia envergado livre e espontaneamente a batina, não sabendo honrar os compromissos assumidos, afundando-se no pântano lodoso dos seus erros e crimes.
Com isso, Zenóbia comove-se e chora... Domênico sente suas lágrimas e pergunta à sua mãe quem estaria chorando por ele, ao que ela responde emocionada: “Os anjos choram de júbilo nas regiões celestes, quando um coração sofredor se levanta do abismo...” Ernestina toma Domênico em seus braços e avança na direção da superfície terrestre, providenciando reencarnação compulsória para o mesmo.
Este relato encontra-se nos capítulos VI e VII dos Obreiros da Vida Eterna, convidando-nos à reflexão sobre os nossos atos na Terra, advertindo-nos de que tudo quanto fazemos, tanto de bem quanto de mal, fica indelevelmente gravado em nossa consciência, promovendo o nosso avanço para a Luz ou o nosso encarceramento nas Trevas.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A VERDADE E A MENTIRA - UMA METÁFORA OPORTUNA.


O Espírito Álvaro Martins que fora, quando encarnado (1868-1906), renomado jornalista e poeta cearense, psicografou, através do médium mineiro Waldo Vieira, uma interessante quadrinha que segue transcrita abaixo:

“Verdade – rio fecundo;
Mentira – pedra a rolar.
A pedra fica no fundo,
O rio chega no mar.”[1]

Nela, o Espírito Álvaro Martins apresenta uma metáfora para compreendermos a diferença entre a mentira e a verdade.
A verdade é comparada a um rio fecundo, caudaloso, de vastas proporções, que vai seguindo despreocupado o seu curso natural, fiel ao leito que lhe dá sustentação, avançando até o ponto em que alcança a sua foz, despejando o fluxo das suas águas mo mar, cumprindo, assim, a finalidade da sua existência.
A mentira, por sua vez, é comparada a uma pedra a rolar, que, ao ser atirada contra o rio, não lhe afeta, indo parar nas profundezas de suas águas, sepultada no leito fluvial, não interferindo, de modo algum, no fluxo da corrente.
Assim, da mesma forma que a pedra lançada no rio não oferece obstáculo algum ao prosseguimento do seu curso, a mentira em nada pode afetar a verdade.
Toda vez que a mentira bater à nossa porta, deixemo-la fechada, não permitindo que ela entre e nos perturbe.
Guardando um postura mental de calma e serenidade, a refletir-se na imperturbabilidade do nosso comportamento, demonstraremos segurança interior, o que conspirará contra a mentira e o mentiroso, denotando a nossa superioridade em relação a eles.
Seguindo o exemplo do rio, avancemos na direção dos nossos propósitos e ideais, sem dar importância às pedras que nos arremessam, porque elas não terão o poder de nos deter, a não ser que o permitamos.




[1]    VIEIRA, Waldo; XAVIER, F. C. Trovadores do Além. 4.ed. Rio de Janeiro-RJ: FEB, 1994.p.110.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O ANDARILHO DAS ESTRELAS


O escritor norte-americano Jack London consagrou-se ainda em vida. Foi autor de mais de cinqüenta romances, tendo alguns deles se tornado best-sellers, caindo no gosto do público. Um destes, pela relevância do seu conteúdo, merece destaque especial: O Andarilho das Estrelas. Constitui obra extraordinária, escrita com grande primor, reflete a genialidade do escritor.
O Andarilho das Estrelas não é uma ficção, uma invencionice, foi inspirado em fatos reais, mais particularmente, nos fatos insólitos que cercaram os últimos anos da vida terrena do professor universitário Darrel Standing.
Narremos, em poucas palavras, essa história no mínimo surpreendente.
Darrel Standing era professor da área de agronomia em uma Universidade do Estado da Califórnia, nos EUA. Teve um grave atrito com um de seus colegas, o também professor Haskell, que acabou assassinando. Isto ocorreu por volta de 1905. Ele, como conseqüência de seu ato, foi preso, permanecendo os últimos oito anos de sua vida promissora na Penitenciária de San Quentin. Destes oito anos, praticamente cinco passou em uma solitária, na maior parte do tempo atado à uma camisa-de-força.
Nesta situação desoladora, passou a vivenciar experiências extra-corpóreas, isto é, fora do corpo físico. Numa delas, enxerga o seu corpo amarrado na camisa-de-força, inerte, semi-morto, e percebe-se desligado do mesmo, com total consciência e lucidez. Este evento foi para ele estarrecedor, pois Standing era um cientista deveras cético, não acreditando em nada além da matéria. Pensava que o seu Eu fosse apenas uma excrescência do cérebro, vindo a mudar de opinião em função da experiência que sofrera, já que constatou que o seu Eu, na verdade, era algo independente do corpo físico, difícil de precisar.
Através de uma experiência extra-corpórea, que o Espiritismo chama de desdobramento, Standing chega sozinho às mesmas conclusões milenares de todas as religiões quanto a existência da Alma e quanto a sua independência em relação ao corpo. Mas as suas experiências não se limitaram à meras viagens astrais, seguiram um curso inesperado...
O professor Darrell Standing passou a recordar-se de suas existências passadas com uma clareza e riqueza de detalhes impressionantes.
Dezenas e dezenas de vidas passaram pela tela de sua memória, emergindo do inconsciente profundo, tal qual um filme em um cinema. Em muitas delas, identifica o que chamou de fúria assassina, que o levou a cometer inúmeros atos atrozes e que fora, igualmente, causa da sua perdição nesta vida. Um impulso atávico em descontrole. Vale frisar que Standing, antes cético, acaba se convencendo da realidade da alma imortal e da sua necessidade de reencarnar, além de compreender o por quê de suas misérias ao analisar o rol e o encadeamento das suas encarnações.
Uma das vidas passadas de que se lembrou é de excepcional valor, porque pôde ser confrontada com dados históricos bem documentados.
Darrel Standing lembrou ter sido Daniel Foss, um simples marinheiro norte-americano, que partiu a bordo de um navio, do porto da Filadélfia em 1809, com destino às Ilhas da Amizade. Ocorreu que o seu navio naufragou e ele foi o único sobrevivente. Abrigou-se em uma pequena ilha formada de rochas. Só conservou consigo um canivete e um remo. Naquela ilhota ficou por mais ou menos oito anos, alimentando-se com carne de foca e água da chuva empoçada nas saliências das pedras. Em seu remo marcava com o canivete cada semana que ali passava. E traçou, também, a seguinte inscrição:
“Serve esta para informar a pessoa em cujas mãos este Remo vier a cair que Daniel Foss, natural de Elkton, Maryland, um dos Estados Unidos da América do Norte, e que zarpou do porto da Filadélfia em 1809 a bordo do brigue Negotiator rumo às Ilhas da Amizade, foi lançado nesta ilha desolada em fevereiro do ano seguinte e ali erigiu uma cabana e viveu inúmeros anos, subsistindo com carne de foca – sendo ele o último sobrevivente da tripulação do dito brigue, que colidiu com uma ilha de gelo e naufragou aos 25 de novembro de 1809”.
Darrel Standing lembrava com minúcias desta encarnação. Recordou-se, ainda, de que Daniel Foss fora resgatado e, ao retornar à Filadélfia doou o seu remo a um museu local, junto com uma breve descrição do seu naufrágio. A partir desta lembrança, ocorreu à Darrell Standing a idéia de verificar a autenticidade de suas lembranças dirigindo uma carta ao Museu da Filadélfia para averiguar se lá, de fato, existia tal remo.
Para a sua surpresa, a carta foi respondida pelo próprio curador do museu, o Senhor Hosea Salsburty. Eis a sua transcrição:
“É verdade que existe aqui um remo como V. Sa. descreveu. Mas poucas pessoas sabem de sua existência pois ele não está em exibição ao público.
Na verdade, e já ocupo este cargo há dezoito anos, eu próprio não sabia de sua existência. Mas, consultando nossos antigos registros, descobri que tal remo foi-nos doado por um certo Daniel Foss, de Elkton, Maryland, no ano de 1821.
Não foi senão depois de longa busca que encontramos o remo, numa sala de madeirames diversos num sótão em desuso. As chanfraduras e o relato estão entalhados no remo, exatamente do modo descrito por V. Sa.
Está também em nossos arquivos um livreto, doado na mesma época, escrito pelo dito Daniel Foss e impresso em Boston pela firma N. Coverly, Jr. Esse livreto descreve oito anos da vida de um náufrago numa ilha deserta. É evidente que esse marinheiro, em sua velhice e passando necessidades, fez circular o dito livreto entre as almas caridosas.
Tenho muita curiosidade em saber como V. Sa. tomou conhecimento desse remo, cuja existência nós, do Museu, ignorávamos. Estarei correto em presumir que V. Sa. teria lido esse relato em algum documento posteriormente publicado por esse Daniel Foss? Terei a maior satisfação em receber quaisquer informações sobre o assunto e comunico a V. Sa. que estou tomando providências imediatas para recolocar o remo e o livreto em exibição.
Sem mais, firmo-me mui atenciosamente,
Hosea Salsburt”
Esta carta fala por si só. Ninguém mais sabia da existência daquele remo, perdido entre os demais objetos do museu. É, pois, uma das mais fortes evidências a favor da imortalidade e da reencarnação.
Darrell Standing ainda lembrou-se de inúmeras outras vidas. Redigiu um pequeno diário das suas experiências espetaculares. Este diário, em 1913, foi contrabandeado para fora dos muros da cadeia, no mesmo ano em que Standing, submetido à pena de morte, foi enforcado, tendo grande repercussão na época.
Foi justamente através dos relatos de Standing que Jack  Londou elaborou o seu incomparável O Andarilho das Estrelas. Não é uma obra espírita, mas é como se fosse. Sua narrativa é envolvente, absorvendo-nos a atenção em cada página, descrevendo e fazendo-nos contatar as intrincadas tramas do destino que encadeiam as diversas existências.
Jack London teve uma vida breve e intensa, viveu entre 1876 e 1916. Sua mãe era médium, comunicando-se rotineiramente com os Espíritos. Jack London nunca acreditou na veracidade do fenômeno mediúnico, mesmo tendo largas demonstrações do mesmo na intimidade do próprio lar. Cedo revoltou-se. Fugiu de casa. Correu o mundo. Foi pescador, garimpeiro, andarilho, até tornar-se jornalista e escritor de renome. Suas obras são parte da Literatura Universal, como O filho do lobo, de 1900, e O lobo-do-mar, de 1904, nelas expressando um realismo marcado pelo seu individualismo, o culto à experiência e, ao mesmo tempo, sua ânsia por reformas sociais.
Jack London sofreu sobre o seu pensamento a influência de Marx, Darwin e Nietzsche. Jamais acreditou na existência da alma, da imortalidade, do contato com os espíritos, da reencarnação... Aos quarenta anos de idade, bastante enfermo, suicidou-se. Custa acreditar que tenha sido ele o autor da seguinte afirmação em O Andarilho das Estrelas:
“A matéria é a grande ilusão. A matéria é a única ilusão. A vida é que é a realidade e o mistério. A vida persiste. A vida é o fio de fogo que persiste através de todas as manifestações da matéria. Eu sei. Eu sou a vida. Eu vivi dez mil gerações. Eu, o habitante desses muitos corpos, permaneço. Eu sou a vida. Eu sou a chama inextinguível, sempre a brilhar e a assombrar a face do tempo, sempre a trabalhar minha vontade e a descarregar minha paixão sobre os agregados terrenos da matéria, chamados corpos, que transitoriamente habitei. O Espírito é a realidade que permanece. Eu sou Espírito, e eu permaneço”.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

AS ASSOMBRAÇÕES DO CRESCENT HOTEL

Localizado em Eureka Springs, cidade do Arkansas, nos EUA, o Crescent Hotel tem uma peculiaridade muito interessante: ele é mal-assombrado. Isso mesmo, mal-assombrado!
Conta-se que um homem chamado Norman Baker havia aplicado um tremendo golpe. Iludiu inúmeras pessoas que tinham câncer, mentindo que possuía um remédio para curar tal doença. Em 1929, no auge da Grande Depressão, após fazer pequena fortuna e algumas das suas vítimas morrerem do câncer que ele prometera curar, Baker transferiu-se para o Arkansas, fugido, onde comprou um hotel já falido, empreendendo um novo negócio.
No entanto, o novo negócio não prosperou muito, como desejava, pois os hóspedes não permaneciam muito tempo no hotel. Afirmavam que o mesmo era assombrado. Viam vultos, objetos que se moviam, cortinas que balançavam fortemente mesmo com as janelas fechadas, escutavam sons estranhos que lembravam gemidos de alguém com dor, etc.
O próprio Baker começou a ficar angustiado, pois associou as aparições em seu hotel com as vítimas que ele ludibriara e que morreram, vindo agora, do mundo dos mortos, vingar-se dele.
Baker quase enlouqueceu, afastando-se dos negócios e evitando aplicar novos golpes.
Mesmo assim, as assombrações no Crescent Hotel nunca cessaram, sendo hoje até exploradas comercialmente.
***
Casos como este são mais comuns do que se pensa.
Os lugares mal-assombrados são de todos os tempos e lugares.
Documentos antigos do Egito, da Babilônia, da Grécia, da Roma, da China, etc., noticiam a ocorrência de fenômenos insólitos em casas, palácios, templos, florestas..., vulgarmente reputados como mal-assombrados e geralmente relacionados à intervenção dos mortos.
É um fenômeno, por assim dizer, praticamente universal.
Os lugares ditos mal-assombrados, abstração feitas dos exageros e das superstições que os cercam, denotam a existência dos Espíritos e a possibilidade dos mesmos de se comunicarem conosco.
O mesmo afirma Allan Kardec no capítulo IX de O Livro dos Médius, que é todo destinado ao tratamento desta temática, que:
“As manifestações espontâneas, que em todos os tempos se hão produzido, e a persistência de alguns Espíritos em darem mostras ostensivas de sua presença em certas localidades, constituem a fonte de origem da crença na existência de lugares mal-assombrados[1].”
No caso do Crescent Hotel, a causa e a natureza das manifestações são bem conhecidas. Os Espíritos, por terem sido enganados num momento de dor e desespero, mantendo-se numa condição de desequilíbrio, de perturbação espiritual, acoplaram-se à Norman Baker, a quem responsabilizavam por sua desdita e inquietação, passando a assombrá-lo, bem como o hotel que adquirira com dinheiro ilícito.
É claro que Baker e o seu hotel só foram perseguidos por aqueles Espíritos cegos de revolta e com sede de vingança e, portanto, incapazes de compreender sua nova condição e a necessidade de desprendimento e perdão para poderem seguir adiante.
Pode-se dizer que a assombração durará tanto tempo quanto durar a causa que a motiva. No caso do Crescent Hotel, foi a vingança, o ódio, a raiva... Enquanto perdurarem, as manifestações continuarão se verificando.
Nisso, como em tudo, convém sempre uma conduta reta e um procedimento alinhado com o amor e o bem, afim de não se cair nas malhas intrincadas do erro e do crime, acarretando severas e duras conseqüências para os implicados.
Tivesse Norman Baker agindo honestamente, por certo não teria terminado os seus dias sobre a Terra cheio de angústia e perturbação...
O caminho fácil nem sempre é o melhor.
Já alertava Jesus: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram[2]”.



[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, p.174.
[2] MATEUS, 7:13.

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