Pensamento...

"Eu sou o Colombo da minha alma e diariamente descubro nela novas regiões." | Gibran Khalil Gibran.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O DRAMA DO PADRE DOMÊNICO.



No ano de 1946 chegava ao público espírita mais uma obra do Espírito André Luiz, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, Obreiros da Vida Eterna. Era a quarta obra da chamada série André Luiz, sucedendo as anteriores: Nosso Lar, Os Mensageiros e Missionários da Luz. É a primeira obra em que André Luiz aparece, não apenas como um observador e aprendiz, mas como um servidor da Espiritualidade, no desempenho de missão bem definida.
André Luiz, supervisionado pelo Instrutor Jerônimo e na companhia de Hipólito, que fora padre em sua última encarnação, e de Luciana, que fora enfermeira, formava com eles pequena comitiva saída da colônia espiritual Nosso Lar com destino à superfície terrestre para atender cinco casos de desencarne, auxiliando no processo de desligamento dos laços que prendem o Espírito ao corpo. Entretanto, no meio do trajeto, estacionam em casa transitória, localizada em zonas umbralinas, que serviria como elemento de ligação entre a Crosta e a colônia espiritual de que procediam. Era a Casa Transitória Fabiano de Cristo, administrada eximiamente pela Irmã Zenóbia, posto avançado de socorro às trevas e aos Espíritos em desequilíbrio profundo. Ali, seriam recolhidas as cinco entidades em vias de desencarne, antes de seguirem para Nosso Lar.
Gostaríamos, todavia, de narrar o drama doloroso do padre Domênico, que possuía estreitos vínculos afetivos com a Irmã Zenóbia.
Aproveitando-se da presença dos missionários do Nosso Lar em sua casa transitória, Zenóbia solicita o concurso de Jerônimo, Hipólito, Luciana e André Luiz para atender um caso particular, no qual estava trabalhando já há várias décadas. Tratava-se de um Espírito mergulhado em densas sombras, em posição psíquica negativa, isto é, refratário a todos os apelos e esforços de recuperação e melhoria. Fora padre em sua última romagem terrena, entretanto, não soube honrar os compromissos do sacerdócio com Jesus, que livremente aceitara.
Com a anuência dos missionários, Zenóbia organiza pequena expedição na direção de abismo próximo, onde se encontrava a entidade sob severa vigilância e cuidado de dois trabalhadores da Casa Transitória. Em lá chegando, observam a situação comovedora em que se encontrava tal criatura. Achava-se prostrada no chão, totalmente cega, ouvindo com dificuldade, cheia de revolta e azedume.
Zenóbia ajoelha-se e, para surpresa dos demais, toma o Padre Domênico em seu regaço, afagando-o com desvelo e carinho.
Inconformado com sua sorte, Domênico esbravejava impropérios contra aqueles que vieram auxiliá-lo, conquanto não os visse, somente escutando-os com muita dificuldade. Zenóbia improvisa uma prece e energias do Mais Alto vertem em direção da entidade revel, melhorando seu estado psíquico e dilatando o campo de sua audição e um pouco da visão. Ante isto, André Luiz comenta estupefato: “Oh! Mais uma vez, reconheci que a prece é talvez o poder máximo conferido pelo Criador à Criatura!”, impressionado pelos efeitos operados pela oração atenuando os desequilíbrios do Padre Domênico.
Diálogo surpreendente é entabulado entre os missionários e o Espírito encarcerado nas trevas de si mesmo. Domênico sentia-se traído pelas forças do Céu. Pelo simples fato de ter sido padre na Terra e de ter recebido a absolvição dos pecados antes de morrer, julgava, em sua compreensão estreita, que merecia acesso às regiões sublimadas do “Paraíso”. Estava fundamente revoltado. Não reconhecia os erros cometidos. O coração transbordava raiva, ódio e fel...
Zenóbia pede a intervenção de Luciana, dotada de profunda capacidade clarividente, a fim de penetrar nos escaninhos mentais de Domênico, descrevendo sua vida terrena para que ele pudesse fazer o auto-exame, reconhecendo seus erros e enganos.
Luciana, então, após concentrar-se na observação da entidade, passa a narrar os quadros mentais que iam manifestando-se à sua visão, tal qual o filme em um cinema. Enxerga os últimos momentos do padre na Terra. Vê-o introduzindo-se em lar honesto e seduzindo uma senhora que, desavisada, cai nas malhas daquele homem dominador. O marido, que estava viajando, retorna de chofre e presencia todo o acontecimento. Ferido e magoado, trama um plano sinistro. Compra uma garrafa de vinho e despeja nela veneno mortífero, indo até a casa paroquial aguardar o retorno do padre. Quando o padre chega, o marido finge que havia chegado naquele momento de sua viagem e oferece ao padre o vinho como obséquio da amizade que existia entre ambos. O padre convida-o a entrar e bebe copiosamente o vinho recebido. O ar começa a rarear, pede socorro, não consegue mais falar... O marido rapidamente se desfaz da prova do crime e grita por ajuda. É atendido por outro pároco, Monsenhor Pardini, que se apressa em absolver o Padre Domênico de todos os seus erros.
Luciana percebe que o padre, ao morrer, continuou ligado aos seus despojos, experimentando o começo da putrefação do corpo físico. Domênico é surpreendido em pleno sepulcro por entidade sombria que avança em sua direção com os braços abertos, ao que o padre, tomado de pavor e medo, consegue desembaraçar-se do corpo, saindo em disparada, correndo de si mesmo para lugar algum. Luciana, então, identifica aquela criatura como tendo sido bela jovem, também iludida pelo padre. Fora engravidada por Domênico e, como este não desejava assumir o compromisso, suicidou-se no lar paterno, ingerindo um corrosivo formicida.
Luciana divisa na tela mental de Domênico o momento derradeiro que privou com seu pai. Este, moribundo, confessou ao filho que possuía mulher e filhos fora do casamento e que desejava reconhecê-los, a fim de não deixá-los ao desamparo. Apresenta um testamento com a divisão equitativa dos bens, que eram muitos, pedindo encarecidamente que o filho lhe reparasse o erro, sendo apoio seguro para a família desconhecida. Domênico concorda com o pai, oferece-lhe palavras consoladoras para que não se sentisse culpado, prometendo amparar a mulher e os seus irmãos. No entanto, assim que o pai morreu, ele engavetou o testamento e não cumpriu sua promessa, relegando à própria sorte a concubina de seu pai e os seus filhos...
Luciana, ainda, verifica outro golpe dado por Domênico num colega de batina. Aspirava a uma paróquia localizada em região litorânea que pertencia a outro pároco. Este, não concorda em cedê-la, por já estar com a idade muito avançada e, também, por estar muito apegado às pessoas de sua paróquia. Domênico, ardiloso, manipula suas influências no alto escalão da Igreja local e consegue com que o padre fosse afastado para outra paróquia, localizada na serra. O padre não suportou a separação e acabou morrendo, odiando profundamente à Domênico...
Luciana, finalmente, observa uma mãe com seu filho anêmico batendo à porta de Domênico, pedindo ajuda. O menino, que tinha entre nove e dez anos, era filho do padre e estava vitimado pela tuberculose. A mãe, desprovida de recursos, como última alternativa, vai buscar ajuda junto à Domênico para que financiasse o tratamento da criança. Domênico, impassível, soltou cães ferozes que avançaram na direção da mãe e do seu filho doente, que acabaram, pouco tempo depois, morrendo.
Nesse ponto o Padre Domênico não agüentou mais a narrativa, implorando a Luciana que interrompesse suas descrições vívidas dos erros que ele perpetrara quando na Terra.
Domênico chora compulsivamente, reconhecendo seus erros, suplicando perdão e ajuda. Zenóbia faz um apelo mental à mãe de Domênico que, em breves instantes, acode, pressurosa, vindo em benefício do filho. Ernestina chega, toma o filho em seus braços, e convida-o a orar, como faziam quando ele era apenas uma criança. Sentença por sentença, Domênico repete a prece, com muita dificuldade, lavando o seu ser em lágrimas doridas, clamando ao Mais Alto por misericórdia.
Nisso, Domênico pergunta à sua mãe por Zenóbia, indagando se ela o teria esquecido. A mãe responde que não, que certamente ela estaria amparando-o de regiões superiores. Domênico, então, pondera que se ambos houvessem casado, o seu destino seria outro, pois que Zenóbia teria sido esteio seguro à sua caminhada na Terra. A mãe lhe adverte suavemente, para que não atribuísse à Zenóbia a causa de sua queda, pois que ela fora compelida pelos seus pais a desposar um viúvo com vários filhos, sabendo-se manter fiel aos compromissos assumidos e pensamento sempre voltado para o Alto, enquanto ele havia envergado livre e espontaneamente a batina, não sabendo honrar os compromissos assumidos, afundando-se no pântano lodoso dos seus erros e crimes.
Com isso, Zenóbia comove-se e chora... Domênico sente suas lágrimas e pergunta à sua mãe quem estaria chorando por ele, ao que ela responde emocionada: “Os anjos choram de júbilo nas regiões celestes, quando um coração sofredor se levanta do abismo...” Ernestina toma Domênico em seus braços e avança na direção da superfície terrestre, providenciando reencarnação compulsória para o mesmo.
Este relato encontra-se nos capítulos VI e VII dos Obreiros da Vida Eterna, convidando-nos à reflexão sobre os nossos atos na Terra, advertindo-nos de que tudo quanto fazemos, tanto de bem quanto de mal, fica indelevelmente gravado em nossa consciência, promovendo o nosso avanço para a Luz ou o nosso encarceramento nas Trevas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pesquisar