Pensamento...

"Eu sou o Colombo da minha alma e diariamente descubro nela novas regiões." | Gibran Khalil Gibran.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O TEMPLO DOS MIL ESPELHOS

De acordo com uma antiga lenda japonesa, havia num bosque ermo, distante muitos quilômetros do vilarejo mais próximo, um misterioso templo, o Templo dos Mil Espelhos.
Nenhuma pessoa ousava profaná-lo, pois dizia-se que quem o fizesse defrontar-se-ia com estranho perigo. Por isso, ninguém ia até lá.
Um dia, no entanto, dois cachorros foram abandonados no bosque e, completamente desorientados, acabaram encontrando o temido templo.
Sem saber que se tratava de um lugar muito perigoso, um dos cachorros resolveu entrar.
Por fora, a vegetação cobria e ocultava a grandiosidade do templo. Por dentro, porém, quando o cachorro atravessou a imensa porta que dava acesso ao interior, assustou-se. Latiu desesperadamente e abandonou o templo em desespero, recomendando ao outro cachorro que ali não entrasse, que fosse embora e salvasse sua vida. Partiu em disparada para lugar nenhum, maldizendo aquele lugar sinistro.
O outro cachorro, contudo, ficou intrigado e não aguentando mais de curiosidade, resolveu por entrar no templo e enfrentar corajosamente os seus perigos.
Entrou no templo calmo e seguro de si. Assim que atravessou a porta, surpreendeu-se com aquilo que viu.
Diante dele, havia uns mil cachorros, observando-o com um olhar de espanto. Para cada lado que olhava, centenas de cachorros o encaravam ameaçadoramente.
Amedrontado, ele ia começar a latir, mas conteve-se. Ao invés disso, experimentou dar um sorriso. Foi quando o inusitado aconteceu. Ao sorrir, todos os cachorros, ao mesmo tempo, passaram a sorrir também.
O cachorro sentiu-se aliviado e feliz, por ver todos aqueles cachorros sorrindo para ele de forma amistosa.
Foi embora do templo bendizendo-o: que lugar maravilhoso!
Mesmo depois disso, nunca nenhuma pessoa teve coragem de entrar no Templo dos Mil Espelhos, com medo dos perigos que poderiam ter que enfrentar em seu interior.
 
***

Refletindo sobre essa lenda japonesa, podemos destacar dois pontos: o medo que temos de nos autoconhecer e o fato de que o nosso exterior muitas vezes não é mais do que o reflexo do nosso interior.
Quem tem a coragem de entrar no templo de si mesmo, sem temer o que lá poderá ser encontrado? Difícil responder. Todavia, chega um momento na vida, e este momento chega para todos, em que não é mais possível adiar a grande viagem: a viagem para dentro de si mesmo, para o templo interior.
Infelizmente, para muitas pessoas, esse momento só chega com a velhice, porque passaram toda a sua vida terrena sem cogitar sobre a sua realidade mais profunda. E é justamente nesse momento que se intensificam os medos: o medo de saber quem ou o que é de verdade, o medo de não ter vivido bem a existência, o medo com o que sucederá depois da morte...
Algumas pessoas, ainda raras, tem a coragem de entrar no Templo dos Mil Espelhos e enfrentar os seus possíveis perigos, descobrindo o que de fato existe ali dentro.
E quando isso ocorre, verifica-se uma singular transformação na pessoa corajosa, dá-se como um estalo, um repentino despertar.
É como se uma poderosa luz fosse acendida em uma sala escura, expulsando de vez a escuridão.
Tudo parece claro agora.
Tudo faz sentido.
A pessoa então descobre que os acontecimentos que a machucaram ou os que a fizeram felizes são, na maioria das vezes, apenas respostas ao que existe dentro de si e não sabe, como os cachorros que entram no templo e, enquanto um late, o outro sorri para si mesmo.
Viver no mundo a partir de uma perspectiva espiritual demanda conhecimento de si mesmo e atenção aos elementos de ligação entre o mundo de dentro e o mundo de fora.
Mas para tanto, é preciso ter coragem e superar o medo, porque o medo é o maior obstáculo para o autoconhecimento e para uma vida feliz.

Um comentário:

  1. Não resisti, "linkei" no "face". Carlinhos, suavemente, tu nos convida a entrar no templo de nós mesmos... oxalá nossa iniciativa seja de sorrisos...

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